04 Agosto 2020

Chefe da Embrapa mostra mitos e verdades sobre queimadas e desmatamento no Brasil

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Um levantamento da Embrapa Territorial com base em dados de satélites da Nasa mostrou que, nos sete primeiros meses de 2020, houve aumento de 44% no número de queimadas na América do Sul, na comparação com o mesmo período de 2019. Foram 149.044 focos de fogo, o maior valor dos últimos sete anos. Esse crescimento, no entanto, foi maior na Argentina (286%), Uruguai (177%) e Paraguai (129%). No Brasil, as queimadas cresceram apenas 4%.

Doutor em ecologia e chefe da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda possui um vasto portfólio em pesquisas sobre o tema e chama a atenção para o que o mundo muitas vezes costuma ignorar: nem tudo é o que parece quando o assunto é queimada ou desmatamento.

Em Miranda enfatizou o fato de os jornais mundo afora darem destaque para números absolutos de queimadas e poucas vezes se importarem com a quantidade de eventos por quilômetro quadrado. Segundo ele, de janeiro ao fim de julho de 2020, o Brasil registrou cinco queimadas por 1.000 quilômetros quadrados, ao passo que a nossa vizinha Venezuela registrou 38 pontos de calor pela mesma área; o Paraguai, 36; a Colômbia, 17; e a Argentina, 10.

Considerando apenas o bioma Amazônia, houve queda de 7% nas queimadas em comparativo com os sete primeiros meses do ano passado. Segundo Miranda, esses dados podem ser analisados por diferentes ângulos.

“Os dados das queimadas são monitorados por satélite diariamente. São vários satélites da Nasa [agência espacial dos EUA] monitorando queimada, mas existe um, o Modis-Aqua, na passagem vespertina, na parte da tarde, que a gente toma como referência no planeta para poder monitorar as queimadas. Afinal, se tiver um fogo que dure oito horas e passarem oito satélites, um a cada hora, serão contabilizadas oito queimadas. Mas na verdade é uma só”, disse.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) utiliza os dados desse satélite para abastecer o banco de dados brasileiro sobre queimadas. “Os dados deste ano mostram que essa seca na América do Sul levou ao aumento muito grande de fogo na Argentina, Paraguai, Uruguai e também no. É uma área pequena e não afeta tanto na globalidade do monitoramento de queimadas do Brasil”, comentou.

Esse, segundo Evaristo de Miranda, é um dos pontos fundamentais para discutir este assunto. Segundo ele, há uma diferença enorme entre incêndios e queimadas e que o Brasil tem todo o potencial para conseguir monitorar ainda melhor e diminuir o número de focos de calor considerados criminosos.

“A queimada é completamente diferente do incêndio. No Brasil, os incêndios são raros na vegetação nativa. Na Amazônia, temos raios todos os dias e nenhum incêndio é iniciado, pois é uma floresta úmida. A queimada, por outro lado, é uma tecnologia agrícola. Ou seja, é o uso do fogo na agricultura, que tem hora para começar, para acabar, tem um responsável por ele e tem um objetivo, como queimar um pasto seco para destruir parasitas ou o resto de uma plantação”, disse.

Segundo o pesquisador, a diminuição do número de queimadas passa, obrigatoriamente, por um acesso maior dos pequenos agricultores às tecnologias mais modernas e que substituem essa prática. “A queimada é uma tecnologia muito antiga, que não é recomendada na agricultura, tanto que a Embrapa fornece tecnologia para substituir a queimada em qualquer sistema de produção, mas o produtor precisa de meios para poder adotar as tecnologias”, contou.

A inclusão dos agricultores na legalidade é tão fundamental que estudos apontam que 95% dos produtores rurais registrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR) não promoveram nenhum foco de calor e suas propriedades.

“A regularização fundiária é uma das aliadas contra as queimadas irregulares. O incêndio é um fogo fora de hora, de lugar, destrói patrimônios e ninguém responde por eles. Incêndio na agricultura é raridade, mas pode acontecer, principalmente aqueles incêndios agrícolas que começam com uma fagulha de uma máquina. Mas, ao contrário de países como Estados Unidos, temos poucos incêndios florestais no Brasil”.

Segundo ele, os pontos de calor notificados são, em sua maioria, focos de queimadas feitas em áreas não incluídas no cadastro ambiental.

“Eu estava vendo um mapa de 1998 de São Paulo e esse estado era o lugar que mais tinha queimada por causa da cana. Hoje, ninguém mais queima cana porque tem as máquinas. Se não tiver regularização fundiária, como esse agricultor vai ter extensão rural, como vai ter acesso ao crédito? Então, essa regularização fundiária é fundamental para que a gente também a regularização ambiental desse produtor”, concluiu.

Segundo o chefe da Embrapa Territorial, outro ponto que ainda é pouco explorado pela mídia e estrangeiros é a importância da produção rural na Amazônia que é utilizada, basicamente, pelo povo local. 

“Existem 500 cidades e quase 29 milhões de habitantes da Amazônia. Temos 1 milhão de produtores rurais e o que se produz lá é irrelevante para o Produto Interno Bruto do Brasil, mas é fundamental para a sobrevivência do povo da Amazônia, pois são esses pequenos agricultores que alimentam a região”, disse.

Atualmente, o Código Florestal autoriza o produtor rural a utilizar 20% do seu imóvel para produção, deixando 80% com vegetação nativa. “É um direito dele, e já há uma limitação inacreditável e que não existe em nenhum lugar do mundo. Mas o que querem é que ele não use nem esses 20% por estar na Amazônia, aí seria como querer exterminar e propor o genocídio do povo da Amazônia”, falou ao Canal Rural

Com agricultura sustentável e com técnicas modernas, como a integração lavoura-pecuária-floresta, segundo a Embrapa, é possível manter o nível de produção do Brasil sem avanços preocupantes sobre a vegetação nativa.

O Brasil não precisa expandir o agronegócio na Amazônia, pois o que tem lá é algo muito pequeno e é destinado à atender a região. Essa agricultura precisa de tecnologia de apoio. No resto do Brasil, quanto mais se integrar pastagem com lavoura, melhor para o meio ambiente, rentabilidade e produtividade. Essa conversa de trocar pasto por cultura é coisa do passado e nós  já podemos fazer melhor do que isso”, disse.

Segundo Evaristo de Miranda, em sua última década de pesquisa, foi possível comprovar que o desmatamento na Amazônia vem, sobretudo, de pequenas propriedades, que possuem o direito de utilizar aquela terra para produzir. “Nos últimos 10 anos eu classifiquei cada pequena área desmatada, e a grande maioria é de pequenos agricultores”, finalizou.

E é com base nesses dados, minuciosamente estudados, que o chefe da Embrapa Territorial defende uma regularização fundiária e facilitação de acesso às tecnologias agrícolas que substituem as queimadas. Dessa maneira, avalia , o Brasil poderá cada vez mais diminuir o número de focos de calor e seguir com a sua vocação de produzir alimento com sustentabilidade, algo que já está na lei e em ações concretas, como o Código Florestal e o CAR.


Fonte Canal Rural

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